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Mundo Interessante

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O antimilitarismo da Igreja primitiva

Sem ser o «doce sonhador que percorria as colinas da Galileia» de que outrora falava Ernest Renan, Jesus não deixava de ser um pacifista radical, recusando a si próprio a utilização da força e proibindo aos seus discípulos o uso das armas, até mesmo para se defenderem. Esta atitude valeu-lhe, aliás, ser finalmente posto de lado pelos nacionalistas judeus que, primeiramente, haviam visto nele o Messias salvador e guerreiro que esperavam, capaz, com a ajuda de Deus, de expulsar os Romanos da terra de Israel.


 


Os cristãos dos dois primeiros séculos adotam primeiro a mesma atitude. Aspirando ao reino de Deus «que não é deste mundo», experimentam a intensa esperança do regresso glorioso de Jesus Cristo (que julgam iminente), para pôr fim às perseguições de que são episodicamente objeto por parte da multidão e das autoridades pagãs. Mantendo-se, segundo os preceitos de Jesus e de S. Paulo, respeitadores do poder estabelecido neste baixo mundo, das leis romanas e das decisões dos magistrados, aguardam «novos céus e uma nova terra em que a justiça habitará» (2ª epístola de S. Pedro). Portanto, a defesa armada de um Império romano pagão não os motiva. Orígenes, Tertuliano e Hipólito de Roma, bem como muitos outros «Pais da Igreja» justificam esta atitude: se os cristãos são cidadãos fiéis ao império e se querem rezar pela sua salvação, recusam pelo contrário violar a lei de Deus pegando em armas por ele, arriscando-se a matar um homem, um irmão, talvez um condiscípulo. Hipólito de Roma, na segunda metade do século III, enuncia claramente a regra: um soldado pode converter-se ao cristianismo, não sem riscos, se aceitar as suas exigências morais. Mas um cristão não pode fazer-se soldado sem renegar a sua fé: se persistir na sua intenção, deve então ser excluído da Igreja. Numerosos crentes, até ao princípio do século IV, preferem sofrer o martírio do que servir pelas armas. Paradoxalmente, tornar-se-ão, novecentos anos mais tarde, os santos patronos da cavalaria.

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