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Mundo Interessante

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História Cómica dos Estados e Impérios da Lua

A noção de «viagem interplanetária» é tão antiga quanto as observações e estudos astronómicos que têm enlevado a humanidade desde os mais recuados tempos. A história mitológica dos povos está repleta de episódios saborosíssimos, com a Lua e o Sol a desempenharem o papel de anfitriões dos intrépidos heróis humanos. Estes, por regra, estabeleciam estranhos concluios com os astros, a ponto de se dizerem descendentes dos mesmos, em particular do Sol (que tinha primazia), da Lua e de Marte.


No plano literário, existem narrativas milenares sobre viagens ao Sol e à Lua, mais tais odisseias jamais ultrapassavam o território dos sonhos ou do sobrenatural. As pessoas viajavam comodamente em sonhos ou, o que era corrente, serviam-se de inimagináveis meios de transporte, como, por exemplo, aves fabulosas ou uma colossal tromba-d'água.


No século XVII, irá acontecer algo de diferente. Depois de Johannes Kepler (1571-1630), arauto alemão da astronomia dinâmica, ter descrito no póstumo Somnium um dos mais curiosos voos espaciais (não conseguindo, porém, transpor o espaço alegórico), um contemporâneo francês dá o passo decisivo. Seu nome: Cyrano de Bergerac (1619-1655). Esse mesmo. É ele quem escreve a primeira ficção que prenuncia, de alguma forma, uma era de engenhos fantásticos (algo como foguetões) que permitiriam aos viajantes chegar à Lua (também ao Sol, mais tarde, numa outra obra). Trata-se de uma sátira social, História Cómica dos Estados e Impérios da Lua, que teria inspirado Swift nas suas Viagens de Gulliver.


Filósofo, poeta e dramaturgo, Cyrano foi uma personalidade curiosíssima. Uma irreverência que produzia abalos sísmicos no meio político de cada vez que uma obra sua saía do prelo. Não obstante o enorme talento e de ter sido uma das figuras mais fascinantes desse tempo, a História fez ressoar universalmente o seu nome por uma particularidade do físico, o respeitável nariz. O dito apêndice nem seria tão grotesco como isso, mas resultou numa caricatura descomunal, aos olhos do mundo e para sempre, a partir de uma peça teatral de Edmond Rostand, estreada com êxito em 1897.


Seria preciso esperar mais de dois séculos para que a Lua retornasse a um certo imaginário de procedência científica. Júlio Verne e H. G. Wells, na literatura, e Georges Méliès, no cinema, converteram o nosso astro num tema predilecto. Bem pode dizer-se que a ficção científica nasceu sob um autêntico halo lunar: em rigor histórico, os marcianos andavam ainda, por essa época, na barriga das mamãs!