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Mundo Interessante

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Frankenstein ou o Moderno Prometeu

Louve-se, então, Mary Shelley - a jovem inglesa que em 1816 criou Frankenstein. A célebre novela, publicada em 1818, quando a autora tinha apenas vinte anos, é considerada a primeira ficção científica de sempre, se se excluírem as abordagens esporádicas de Cyrano e de um outro francês, Jean-Baptiste Cousin de Grainville, que em 1805 publicou uma obscura história intitulada Le Dernier Homme.


A obra de Shelley possui uma dimensão apreciável. É verdadeiramente precursora ao reflectir as novas descobertas da ciência e da tecnologia. Mary Shelley nasceu em 1797, quando ainda era vivo Luigi Galvani, o famoso anatomista italiano cuja descoberta da electricidade dinâmica era um tema que continuava a empolgar os cientistas de toda a Europa. Galvani observara que os músculos das pernas de uma rã dissecada se contraíam repentinamente quando uma faísca proveniente de uma máquina de electricidade estática as atingia, ou quando um bisturi metálico lhes tocava enquanto a máquina estava a funcionar, mesmo não havendo contacto directo com as faíscas. Descobriu então que os músculos das pernas da rã reagiam, na ausência total de faíscas eléctricas, desde que contactassem em simultâneo com dois metais, como o ferro e o latão. Mais tarde, um outro cientista italiano, Alessandro Volta, demonstrou que dois metais diferentes podiam originar uma corrente eléctrica. Já não se duvidava, no princípio do século XIX, de que a electricidade tinha alguma conexão misteriosa, mas aparentemente íntima, com a vida. Os cientistas mais ousados começaram a especular sobre a possibilidade de criação científica de vida.


Também a jovem Shelley, que conhecia as investigações de Galvani e de Volta, pensou no assunto. Mas foi mais longe. Muito mais longe. Concebeu uma criatura enorme, humanóide, criada artificialmente. O tema pareceu-lhe excelente para um romance científico. A figura central do enredo era Vitor Frankenstein, um inquieto anatomista (como Galvani) que decidiu empreender a experiência limite de infundir vida a um corpo inteiro e não apenas a um músculo isolado. A esse plano prodigioso acrescia a ambição de conferir à nova forma de vida um carácter permanente, não transitório.


A genialidade de Mary Shelley não se confinou ao pioneirismo do tema. Poderia ter escrito uma banal ficção de terror gótico, como era recorrente na época. Preferiu ir às raizes filosóficas e metafísicas do mito, o mito prometeico do homem que ousa franquear o território divino e se torna escravo e vítima do ser que criou. Exercício literário de ressonância goethiana, revela a profundidade das mais ancestrais angústias e aspirações humanas sem deixar de constituir, como realização ficcional, uma obra arrebatadora.


Ao fim de quase dois séculos, o tema não só permanece vivo no imaginário universal como parece adquirir perturbantes indícios de seduções nada ficcionais. Todavia, é diminuto o número de pessoas que leram o livro. Melhor fortuna teve Frankenstein no cinema e na televisão, com uma prole de duas centenas de títulos. Infelizmente, continua a sofrer estropiações grosseiras que o desterram sem piedade para as profundezas dos horrores abjectos.