Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Mundo Interessante

Mundo Interessante

Deus Está Morto


Uma das afirmações mais importantes da história da filosofia é a frase "Deus está morto" do filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Mas o que significa esta frase? É uma simples declaração de ateísmo? Talvez uma provocação aos cristãos? Nada disso. Esta frase é extremamente importante! Com ela, Nietzsche divide a história ocidental em duas metades: a história anterior à negação da primazia social dos sacerdotes cristãos e a posterior (a Revolução Francesa). Esta frase marca o desmoronamento dos ideais cristãos e a ascensão do niilismo.

O que significa então dizer que Deus está morto? Significa que os absolutos da metafísica cristã deixaram de fazer sentido, quando eram eles que atribuíam o sentido à vida! Se não existe Deus, não existe verdade, unidade ou propósito na existência. A própria moral deixa de fazer sentido, pois não existe aquilo que garantia a sua veracidade, que era Deus. Se não existe Deus, então o Bem também não existe; se não existe Deus, então não há paraíso depois da morte; se não existe Deus, este mundo impermanente e sem-sentido é o único que existe. Mas que pensamento mais assombroso! Quem o pode suportar?

Nietzsche destrói, com essa frase aparentemente inocente, o sentido da vida que prevaleceu por dois mil anos. O Ocidente considerava este nosso mundo como passageiro e falso, ao contrário do mundo depois da morte, que era visto como verdadeiro, eterno e imutável. O fundamento do mundo verdadeiro era Deus, mas agora, sem o senhor supremo, o mundo verdadeiro deixa de fazer sentido, ou seja, deixa de existir. Mas se não existe o mundo verdadeiro, isso significa que o mundo aparente é o único que existe. No entanto, o mundo aparente deixa também de fazer sentido - pois só era aparente e falso quando o suposto mundo verdadeiro se apresentava como o seu contraste!

"Deus está morto" significa que tanto o mundo aparente como o mundo verdadeiro deixam de fazer sentido. Passa a não existir sentido, nem verdade, nem unidade e nem permanência na nossa vida. Agora começa uma nova história: a história da humanidade sem deuses que expliquem a sua existência. Sendo assim, somos nós que temos que atribuir sentido à vida, apesar de sabermos de antemão que os propósitos que desenvolvemos para a vida são todos falsos. Para que então criar um sentido? Porque sem sentido, a crueldade, o devir e a injustiça da existência tornam-se intoleráveis! Aquilo que consideramos como "sentido da vida" é apenas uma máscara que torna o sofrimento suportável.

Deus está morto - agora somos nós que devemos nos tornar deuses! Agora somos nós que criamos o sentido da vida, não para todos, mas para nós mesmos. Agora os homens têm a oportunidade de criar valores, ao invés de seguirem os valores do Deus cristão que dominou o Ocidente nos últimos dois milénios ou dos deuses pagãos que dominavam o mundo antigo. Agora começa uma nova história universal! Quem tem coragem para atribuir um sentido ao mundo? Quem tem coragem para destruir todos os velhos ideais e criar novos caminhos? Quem tem coragem para ser um novo deus?

Ao anunciar o colapso do mundo verdadeiro, Nietzsche lança sobre os nossos ombros um pesado fardo: dar sentido ao mundo, um sentido novo, algo que não é para todos, mas apenas para aqueles que compreendem completamente o acontecimento da morte de Deus. Toda a moral, todos os ideais, todas as traseiras deste mundo cessam de existir. Estamos agora diante deste único mundo como uma criança sem pais. Fomos abandonamos pelo divino que reinava no Ocidente. Se não formos capazes de atribuir um novo sentido ao mundo, um sentido terreno, corremos o risco de ser engolidos pelo monstro do niilismo, o monstro do desespero. Deus morreu, e agora os homens devem necessariamente tomar o seu lugar como criadores de valores.