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Mundo Interessante

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«Bem e Mal» - «Bom e Mau» (II)

"Estes historiadores da moral são umas boas pessoas. Mas falta-lhes o espírito histórico, falta-lhes a inteligência do passado. Têm, segundo é velha tradição nos filósofos, uma maneira de pensar essencialmente anti-histórica. A futilidade da sua genealogia da moral aparece desde o primeiro passo, desde que se trata de precisar a origem do conceito «bom». «Ao princípio - dizem - as ações altruístas foram louvadas e reputadas boas por aqueles a quem eram úteis; mais tarde esqueceu-se a origem deste louvor e chamaram-lhe boas as ações altruístas por costume adquirido da linguagem, como se fossem boas em si mesmas». Esta primeira derivação apresenta todos os traços típicos da idiosincrasia dos psicólogos ingleses: encontrámos nisto «utilidade», «esquecimento», «costume», e por fim «erro»; e tudo para servir de base a uma apreciação que até hoje parecia privilégio dos homens superiores. Este orgulho deve ser humilhado; esta apreciação deve ser desprezada. Para mim é evidente que esta teoria tira a sua origem do conceito «bom» num lugar aonde não está: o juízo «bom» não emana daqueles a quem se prodigalizou a «bondade». Foram os próprios «bons», os homens distintos, os poderosos, os superiores que julgaram «boas» as suas ações; isto é, «de primeira ordem», estabelecendo esta nomenclatura por oposição a tudo quanto era baixo, mesquinho, vulgar e vilão. Arrogavam-se da sua altura o direito de criar valores e determinativos: que lhes importava a utilidade! O ponto de vista utilitário é de todo o ponto inaplicável quando se trata da fonte viva das apreciações supremas que constituem e distanciam as classes sociais; foi o sentimento, não a utilidade - e não uma hora de excepção, senão em todo o tempo - repito; a consciência da superioridade e da distância, o sentimento geral, fundamental e constante de uma raça superior e dominadora, em oposição a uma raça inferior e baixa, determinou a origem da antítese entre «bom» e «mau». (Este direito de dar nomes vai tão longe que se pode considerar a própria origem da linguagem, como um ato de autoridade que emana dos que dominam. Disseram: «Isto é tal e tal coisa», vincularam a um objeto ou a um facto, tal ou qual vocábulo, e assim ficou). De maneira que primitivamente a palavra «bom» não significava ação «altruísta», como imaginam estes genealogistas da moral. Foi antes ao declinar as apreciações aristocráticas quando a antítese «egoísta» e «desinteressada» («altruísta») se apoderou da consciência humana. O instinto de dominar acabou por encontrar a sua expressão. E até muito depois este instinto não dominou de tal modo que a avaliação moral ficasse presa e sujeita neste contraste (como sucede, por exemplo, na Europa de hoje, onde esta preocupação assumiu o caráter e a força obsessiva de uma ideia fixa)."

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