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Mundo Interessante

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A psicologia do homem bom

"Para apreciar o valor de um tipo humano, requere-se calcular o preço da sua conservação - requere-se conhecer as suas condições de existência. A condição de existência do bom é a mentira: exprimindo de outra maneira, é a recusa obstinada, e a todo o preço, de ver como é constituída a realidade. Ora, ela não é constituída de modo a solicitar constantemente os instintos benévolos, e menos ainda a permitir a intervenção de mãos néscias e bondosas. Considerar em geral as desgraças de toda a espécie como simples embaraço, como coisa a suprimir, é a necessidade por excelência, necessidade que pode provocar verdadeiras catástrofes. Se se olham as coisas de alto, essa atitude aparece como fatalidade da estupidez - e estupidez quase tamanha como seria pretender, por exemplo, suprimir as intempéries por amor dos pobres...

Na grande economia do Todo, os terríveis golpes da realidade (na ambição, nas paixões, na vontade de poder) são necessários em grau inapreciável, muito mais que a forma medíocre de ser feliz que se chama «bondade» - preciso até de ser indulgente para conceder lugar a esta última, visto que ela tem por condição a mentira dos instintos. Terei já ocasião de mostrar as consequências perturbantes e incomensuráveis que pôde ter, para toda a história, o otimismo, essa criação dos homines optimi. Zaratustra compreendeu antes de ninguêm que o otimista é tão decadente como o pessimista, e talvez mais nocivo. Eis as suas palavras: "Os homens bons nunca dizem a verdade. Os homens bons ensinam a falsidade na maneira de agir e de pensar. Vós nascestes e fostes educado nas mentiras dos bons. Tudo foi desde o fundo deformado e pervertido pelos bons".

O mundo não está felizmente para corresponder aos instintos em que o animal de rebanho encontra a felicidade. Exigir que todos os «homens bons» tenham olhos azuis, sejam bondosos, tenham uma «bela alma» - ou, como quer o senhor Herbert Spencer, se tornem «altruístas» - seria retirar à existência a sua característica primacial, seria castrar a humanidade e fazê-la descer à mais mesquinha chinezice. Neste sentido chama Zaratustra aos bons, ora «os últimos homens», ora o «começo do fim»; antes de tudo os considera ele como a mais perigosa espécie de homens, visto que levam adiante a sua forma de experiência tanto à custa da verdade como do porvir."

Ecce Homo