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Mundo Interessante

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A Grande Saúde


Friedrich Nietzsche

"Nós, gente nova, sem nome, mal compreensíveis, nós, seres de um porvir ainda desconhecido, precisamos, para um novo escopo, também de um novo meio, isto é, de uma nova saúde, mais forte, sagaz, tenaz, ousada, mais afoita do que hajam sido as saúdes até agora.

Aquele cuja alma tem sede de experimentar o círculo inteiro dos valores e das maravilhas até hoje e de navegar ao redor de todas as costas deste ideal "mar interno", aquele que das aventuras da própria experiência quer saber qual a coragem de um conquistador e de um escultor do ideal, como de um artista, de um sábio, de um legislador, de um douto, de um piedoso, de um asceta de velho estilo: carece este, antes do mais, da grande saúde — tal qual não só se possui, mas que também continuamente se conquista e se deve conquistar, porque está sempre a dar e é a que deve dar.

E agora, após que nos distanciamos tanto, nós, argonautas do ideal, mais corajosos do que seja razoável e bastantes vezes náufragos e em condições más, perigosamente sadios, parece-nos que, por prémio, tenhamos uma outra terra inexplorada à nossa frente, uma terra cujos confins jamais alguém avistou, um além de todos os países e recantos do ideal tidos até hoje, um mundo tão exuberante de belo, de estranho, de coisas misteriosas, temíveis e divinas, que a nossa curiosidade e o nosso desejo de posse são transportados para fora de si, — ah! como doravante nada mais nos satisfaz!

Como poderíamos nós, depois de tal olhar, com tal fome ardente no cérebro e na consciência, contentarmo-nos ainda com o homem atual? Bastante mal: porém é inevitável que lhe aguardemos as esperanças e as suas metas mais dignas com uma seriedade difícil de sustentar, embora até nem mesmo as guardemos.

Temos à nossa frente outro ideal, um ideal maravilhoso, tentador, cheio de perigos, ao qual não poderíamos persuadir ninguém, para que não outorguemos a alguém assim facilmente o direito: o ideal de um espírito que ingenuamente, isto é, involuntariamente e por exuberância e força impetuosa, se divirta com tudo quanto se chamou até hoje santo, bom, intangível, divino; pelo qual a coisa mais alta em que o povo acha a bom preço a medida do próprio valor, ou seja perigo, decadência, humilhação, ou pelo menos alívio, cegueira, significariam esquecimento temporário de si; o ideal de bem-estar e bem-querer humanos e sobre-humanos, que muitas vezes parecerá não humano; por exemplo quando se defrontarem a total seriedade terrena que se teve até o momento, as solenidades de atitudes, as palavras, o som, a moral, a tarefa como a sua paródia involuntária e visível — com a grande seriedade e esta se erigir, põe-se enfim o ponto de interrogação, evola-se o destino de uma alma, o bisturí se move, a tragédia começa..."

A Gaia Ciência